Felippe Hermes

Felippe Hermes

02-11-2022

14:46

Qual o risco de o Brasil virar uma Argentina? Praticamente nenhum. Ambos os países têm diferenças gritantes, que afastam quase por completo o risco de chegarmos no estágio dos vizinhos, o que, leia-se, pode ser traduzido por uma inflação que beira 100% ao ano. 👇

Brasil e Argentina tiveram um histórico similar. Ambos os países tiveram ditaduras que expandiram seu gasto público e endividamento externo. Ambos sofreram com a década perdida, os anos 80, onde os juros nos EUA explodiram, levando a calotes na América Latina

Ambos os países tiveram planos de estabilização nos anos 90 para liquidar a hiperinflação resultante dos anos 80. O dos argentinos, o plano Cavallo, foi bastante elogiado e era o favorito do FMI, que não via com bons olhos o Real. Achava complexo e difícil de pegar.

E ambos os planos tiveram êxito por um tempo. O do Brasil, porém, foi abalado em 1998. A crise nos países asiáticos, depois a crise na Rússia e a crise no México, abalaram a confiança em emergentes. O real perdeu 60% do seu valor frente ao dólar em janeiro de 1999

A expectativa era de que o Real se desvalorizaria de forma controlada em 1999, em 10-15% no ano. Em 1 dia, em 13/01, se desvalorizou 15% A reação brasileira é o que diminui o risco de "virarmos uma Argentina"

O país apresentou um plano: o tripé macroeconômico. O governo reforçou a economia pra pagar os juros da dívida, criou metas de inflação e deixou o câmbio flutuar. Também subiu os juros para evitar saída de dólares. Em 2000, criamos a Lei de Responsabilidade Fiscal

Já o Plano Cavallo da Argentina, colapsou em 2001. O país teve 5 presidentes em 12 dias. Entrou em falência. Moedas paralelas surgiram, e os argentinos fugiram pro dólar. O governo promoveu um confisco, convertendo dólares em Pesos, o corralito. Minou a confiança na moeda.

A reação dos argentinos foi nas urnas: elegeram um anti-neoliberal. Nestor Kirchner. Ocorre que em setembro de 2001 a China entrou para a OMC, a organização mundial do comércio, e o crescimento das importações e exportações chinesas levou a um boom de commodities.

Os chineses agora tinham grana pra comprar trigo, minério de ferro pra construir cidades e tudo o mais que a América Latina importava. Kirchner assumiu o governo logo no início dessa virada.

Por aqui, Lula assumiu. O Brasil teve uma desvalorização do dólar frente ao risco Lula, mas que foi contida com acordos com o FMI para disponibilizar $40 bilhões de dólares, caso necessário. Não foi preciso. Os dólares vieram pra cá via exportações.

Kirchner e Lula surfaram essa onda. Ambos passaram a ter dólares de sobra, e usaram isso pra expandir os gastos públicos. Mas Lula (Palocci), estancou ainda mais o problema. Foi aos poucos internalizando a dívida externa.

Ao final dos dois governos, os gastos públicos haviam explodido, mas o Brasil tinha 2 vantagens (que ainda tem). 1) a dívida brasileira é em Real, ao contrário da Argentina que deve em dólares 2) Desde os anos 90 o BC é proibido de comprar títulos e financiar o governo

No início dos anos 10, quando a fonte de dólares secou, ambos estavam comprometidos com gastos públicos elevados. Continuaram estes gastos crescentes, mas o PIB já não acompanhava. Na Argentina, a manipulação da inflação foi agressiva.

O governo passou a mentir descaradamente sobre a inflação, e prender quem discordasse No Brasil, Dilma fez algo similar, mas muito mais discreto. Mandou a Petrobras estudar o prejuízo. A receita era simples: se o preço é pago pela Petrobras, ele não aumenta pro consumidor.

Se ele não aumenta pro consumidor, ele não entra no Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, nosso índice de inflação. Ainda assim, a questão da dívida externa pesava mais na Argentina. Como commodities (como alimentos), são cotados em dólares, o dólar importa

O governo argentino gastava muito, não conseguia economizar pra pagar sua dívida, e agora tinha menos dólares no mercado. Com menos dólares, a moeda americana se valorizava, e os preços idem. O governo gastava mais pra aliviar a situação, botando gasolina no fogo

Em 2010, o Peso Argenrino pra cotado em 1 pra 4. Agora, vale 1 pra 350 Os argentinos fizeram novamente um acordo com o FMI, que não será cumprido. Na Argentina, de cada $100 da conta de luz, o governo paga 70%

Subsídios custam quase 4% do PIB e o país tem déficit de 2% do PIB, longe de ser resolvido. A confiança de que a Argentina irá pagar sua dívida é nula. Já no Brasil, mantivemos os dólares guardados, ao invés de usar para pagar dívida externa

Com isso, mesmo com uma mega desvalorização como em 2020, o Real ainda se sustenta. O risco aqui é muito menor do que lá, e as contas públicas ainda seguem regras de forma mais séria (não tanto, mas ao menos existem regras aqui).

Não há risco de o Banco Central quebrar a lei e financiar o governo diretamente A regra de Ouro, que impede o governo brasileiro de pagar gastos correntes emitindo dívida, não existe na Argentina.

A Lei de Responsabilidade Fiscal que disciplina os estados, não existe na Argentina. O Teto de Gastos (sim, existem 3 leis pra dizer que o governo deve ter Responsabilidade), não existe lá. Estamos muito menos expostos que os argentinos.

E é bastante difícil imaginar uma reversão na escala Argentina. Mesmo que o governo aumente os gastos, os riscos ainda são muito menores.

Um PS com os riscos pra se ficar de olho, que não inválida o geral, mas convém acompanhar: O cenário global: Os EUA terão uma recessão, o crescimento chinês está diminuindo rapidamente, e os chineses têm um problema demográfico grande.

Os juros em alta nos EUA pressionam o quadro geral, e forçam os juros aqui a estarem altos também. Há ainda as demandas sociais represadas. Anos de ajuste nas contas deixam o salário mínimo e gastos públicos menores em áreas sociais.

O "extra teto", terá de ser muito bem desenhado. Não é uma novidade, foi feito esse ano. Mas a soma de tudo gera incertezas. Não a ponto de virarmos Argentina, mas incertezas comuns ao país, que podem piorar a situação.


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