Felippe Hermes

Felippe Hermes

10-11-2022

22:36

O que o mercado tem contra Lula? O Ibovespa atingiu sua maior cotação histórica em de 2008, em meio ao governo Lula, já o lucro dos bancos cresceu 8 vezes no seu mandato. Ainda assim, as falas de Lula hoje movem o mercado, e muitas vezes pra baixo. Essas são as razões 👇👇

Antes de tudo é preciso comentar "o que é o mercado", ou mercado financeiro propriamente. O mercado financeiro é feito de inúmeras subdivisões. A mais conhecida delas é aquela que você vê nos jornais: a bolsa de valores. Mas ela não é a maior, pelo contrário

O maior mercado no Brasil, como em qualquer lugar do mundo, é o mercado de títulos. Por aqui ele movimenta R$11,7 trilhões, mais do que o dobro do valor de toda a bolsa. Invariavelmente, todos estes mercados trabalham com um mesmo produto: o dinheiro.

Este produto tem um preço, chamado de "juros". Como juros são o preço do dinheiro no tempo, importa saber como estarão os produtores (aqueles que poupam), e os consumidores (aqueles que investem), e o que eles pensam sobre si mesmos no futuro.

E é aí que entra o governo, mudando as expectativas. Governos podem criar previsibilidade, ou tornar as famílias e empresas mais inseguras. E ironicamente Lula fez os 2, por isso o mercado seguia em dúvida sobre qual modelo ele adotaria.

Lula chegou a presidência após 3 tentativas frustradas de eleger. Perdeu para Collor e FHC, mas em 2002, mudou o tom. O "lulinha paz e amor", enviou uma carta de amor ao mercado, a chamada "carta aos brasileiros".

Essa carta foi distribuída em Washington (EUA), e na Faria Lima (aquela avenida que Maluf que fez, e onde estão grandes bancos e outros membros do mercado). Nessa carta, Lula deu lugar ao consenso. Dizia que iria respeitar contratos, não mudaria as regras do jogo, e ++

seguiria toda cartilha econômica que ele e seu partido passaram anos atacando. E Lula de fato cumpriu essa promessa nos seus 2 primeiros anos de governo. Entre janeiro de 2003 e junho de 2005, Lula foi um exímio neoliberal.

Fez superávit primário recorde (economia para pagar os juros da dívida), nomeou um banqueiro renomado para o Banco Central (Henrique Meirelles, ex-CEO global do Bank Boston)

Lula até compôs no congresso com a oposição para aprovar uma dura reforma da previdência que retirava privilégios do funcionalismo público. Alguns petistas ficaram furiosos. Não tinha problema. Lula os expulsou do partido. E eles saíram de lá para fundar o PSOL.

Lula tinha Marcos Lisboa no planejamento econômico, ao lado de outros nomes nada petistas. Juntos eles buscavam implementar algumas coisas básicas, como um programa que distribuiria dinheiro para as famílias ao invés de distribuir bens como cestas básicas.

Foi um festival de críticas. Nessa matéria aqui a economista Maria da Conceição Tavares chama de débeis mentais os economistas que estavam propondo essas coisas (tipo o Bolsa Família).

Enfim. Foram inúmeros projetos para dar segurança a quem empresta recursos, e a chave do cofre do governo bastante apertada. Parecia funcionar bem. Lula se gabava das consequências, como ter pago um empréstimo ao FMI e estar financiando os EUA com a compra de títulos americanos

Mas rolou um problema. Muito antes de virar atirador semi-profissional, Roberto Jefferson ficou conhecido por denunciar que o governo estava pagando R$30 mil de mesada aos políticos da base. Era dinheiro desviado de estatais direto pro bolso de políticos, o Mensalão.

Com o Mensalão, em 21 de junho de 2005, José Dirceu caiu. A então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, ocupou seu lugar na Casa Civil. Alguns meses depois, Antônio Palocci cairia após o escândalo de quebra de sigilo do caseiro em sua mansão no Lago Sul

O caseiro Francenildo havia deposto afirmado que viu inúmeras festas na residência, incluindo a festa com dinheiro público em maletas. Palocci então mandou servidores da Caixa quebrarem o sigilo, e reagiu afirmando que Francenildo havia recebido uma quantia em sua conta ++

dias antes de depor. Mas além da quebra de sigilo, o caso fracassou pois Francenildo provou que recebera o dinheiro de seu pai biológico. Palocci caiu. Sem Palocci, Dilma mandava ainda + E quem ocuparia o lugar do médico de Ribeirão Preto que estava na Fazenda? Guido Mantega.

Guido se tornou assessor de Lula em 1993. Um ano depois mandou sua primeira grande sugestão: acusar o Plano Real de ser estelionato eleitoral. Não era, e FHC ganhou em primeiro turno.

Ocorre que, após um grande escândalo de corrupção, Lula enfrentaria uma eleição. O IBGE havia divulgado que o PIB em 2004 havia caído! Em 2005 o PIB até então estava "estagnado". Lula pressionou o Banco Central a aliviar nos juros para gerar crescimento em ano eleitoral.

O BC não cedeu, mas Guido deu uma força. Em 2006 os gastos do governo cresceram mais de 20%. Nota: o IBGE colocou uma tremenda pilha errada, já que em 2007 o PIB de 2004 e de 2005 que quase fizeram Lula intervir no Bacen foram revisados. Com viés de alta.

Em outubro de 2006, Lula foi reeleito. O cenário externo era favorável, e o clima de otimismo tomava conta do país. Foi com este clima que Mantega e Dilma iniciaram uma nova fase na economia: o PAC.

O Programa de Aceleração do Crescimento reunia de tudo, de investimentos diretos do governo até aumento do crédito. O importante era anunciar um número grande, tipo R$1 trilhão (como o Pac2).

Os superávits e arrochos deram lugar aos aumentos consideráveis no salário mínimo. A fórmula era simples e sedutora: vamos ficar ricos gastando! Mais credito, mais crescimento. Até que veio a crise de 2008. Mesmo sem o cenário externo favorável, o Brasil dobrou a aposta.

O governo começou a se endividar e repassar recursos aos bancos públicos. Apenas no BNDES seriam colocados R$500 bilhões, ou 14% do PIB na época. O governo tomava emprestado a 14% ao ano, emprestava ao BNDES a 5% e o pagador de impostos paga a diferença.

O empresário tomava empréstimo no banco, para construir fábricas, ou comprar um jatinho da Embraer, pagando 6%. Como a inflação estava em 6%, os juros eram 0. Funcionou no começo. Em boa medida pois a política monetária não perdia a linha.

Os juros caiam de forma moderada, e a inflação também. Também em 2008, Lula iniciou o projeto que seria apelidado pela mídia de "Campeões nacionais". Grandes conglomerados contariam com a benção do governo para que o Brasil tivesse empresas globais.

O BNDES comprava participação e emprestava o que fosse preciso. As áreas escolhidas eram, por exemplo, proteína animal (JBS), telecomunicações (Oi), Papel e Celulose (Fíbria), ou alimentos (BRF). Também no mesmo ano fatídico de 2008, Lula cancelou o leilão....

da Agência Nacional do Petróleo, isso pq se suspeitava que muitos dos blocos que poderiam ser leiloados estavam no pré-sal. O governo mudou a regra do jogo dias antes e tornou todos eles exclusivos da Petrobras.

A estatal brasileira se tornaria um pilar da política econômica lulista, investindo mesmo que tivesse de se endividar pra isso. O resultado de Lula foi positivo, e ele saiu do governo com aprovação recorde e um PIB superior a 7% em 2010.

O problema é que em 2011 o Banco Central deixou de ser tão rígido. Com a saída de Meirelles, o Bacen topava até reduzir juros na canetada. E então se aprofundaram uma série de políticas apelidada de "Nova Matriz Econômica", que criariam a Grande Depressão Econômica.

Lula deixou um país viciado em aumento de gasto público, crédito e investimento subsidiado. Dilma insistiu na fórmula, mas sem os dólares de commodities e o país quebrou.

Apesar de a história insistir que Lula seria o hábil condutor político e Dilma "mudou tudo", a história também mostra que há digitais de Lula na crise. E a grande dúvida do mercado para um mandato Lula 3 portanto, sempre foi:

Que Lula irá governar? O primeiro, que cumpre contratos, ou o segundo que esbanja no crédito? O mercado busca essa resposta, mas Lula se nega a dar. Na incerteza, pairam resultados ruins.

Sem saber o que esperar, espera-se pelo pior, afinal, é melhor ser surpreendido positivamente do que ser pego de calça curta. O mercado hoje vê Lula de uma forma muito menos generosa do que via em princípio, pois Lula, assim como as famílias brasileiras,

consumiu o crédito que lhe foi colocado. Sabendo que o mundo irá enfrentar uma grande desaceleração de crescimento, o mercado brasileiro cria expectativas de que o governo irá demandar cada vez mais recursos para si.

O aumento de gastos prometido por Lula, pode ter suas razões políticas e sociais, mas isso não anula o fato de que ao demandar mais recursos para se financiar, o governo diminui os recursos de famílias empresas.

O Lula que não se preocupa com previsibilidade e acha que tudo não passa de choro do mercado, é o Lula que derruba a bolsa. Como diz a expressão, "no hard feelings". Sem ressentimento algum, o mercado projeta incerteza.

O resultado disso, como você já deve saber, é uma alta no dólar, aquela moeda onde são cotados os produtos que você consome no café da manhã.

Tenho incluído todas as threads neste fio aqui para quem se interessar.


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